Para quem não sabe faz agora um ano, ou já fez um ano, desde que comecei a dar-me a conhecer mais às pessoas, eu já sabia à muito tempo mas agora era a vez dos outros saberem pela minha boca.

Para dizer a verdade foi uma resolução de ano novo de 2004, mas levou algum tempo até passar de intenções a acções.

Comecei por contar a uma pessoa que é importante para mim e como eu tive sempre grandes dificuldades em relacionar-me com rapazes foi a um rapaz, o meu melhor amigo, que contei pela primeira vez que era gay. Foi difícil contar mas “Se feliz como um hipopótamo”, foram as palavras de apoio.

Depois deixei passar aquele tempo necessário para reflexão e para ver melhor como haveria de dar o passo seguinte até que num jantar a dois combinado assim meio à pressa no Alvaláxia, passei para uma das pessoas que sempre necessário critica-me e são poucas as vezes que ouvi elogios dela, mas tenho a certeza que é sempre para o meu bem. O que me ficou mais marcado desse jantar não foi o preconceito, não foram as questões algo ridículas, não foi o silêncio, foi a preocupação da loira, “E agora André?!?!”.

No dia seguinte tive que dar o próximo passo, como seria difícil de gerir um “segredo” assim entre duas melhores amigas numa praia da Costa da Caparica antes de virmos embora dei a conhecer mais uma vez as minhas orientações sexuais. O que me ficou marcado desta pequena conversa foi a rápida ambientação dela com o assunto que passou logo por cima da parte mais burocrática da situação e fez logo uma pergunta muito, mas muito pessoal.

Depois vieram as festas de verão em Abrantes, onde por acaso encontrei outra amiga minha e combinamos umas saídas à noite, foi numa dessas noites que lhe contei, mais uma vez correu tudo bem, sem grandes percalços.

Durante o verão trouxe o meu computador para casa onde tinha internet e comecei mais activamente a procurar relacionar-me com a nova temática, inscrevi-me num fórum, li alguns artigos e depois comecei a participar no fórum. Até que no início de Setembro recebo uma mensagem de um rapaz do fórum a dizer que também era do IST, blá, blá, blá e o meu messenger é *****@hotmail.com, adicionei. Conversamos, falamos um pouco, fiquei a saber que ele às quartas-feiras costumava ir ter com pessoal gay durante a hora de almoço ao bar de química lá no IST, convidou-me também para ir lá numa das quartas-feiras, depois tentou convencer-me a ir a uma reunião de um grupo de apoio, inicialmente não fiquei muito receptivo à ideia mas fomos falando por messenger até ao início das aulas, aí fui desterrado novamente para Lisboa.

Em Lisboa tive oportunidade de falar com o meu melhor amigo sobre o assunto e que havia a possibilidade de eu me encontrar com pessoal gay, mas eu não estava muito receptivo à ideia, então ele lá me fez uma lavagem cerebral e que se fosse necessário ele ia comigo, que não havia problema e por aí em diante.

Um sábado fiquei em Lisboa e fui à dita reunião. Conheci pessoas novas e o tal rapaz do IST também lá apareceu, conversa puxa conversa ele convenceu-me a ir na quarta-feira seguinte ao bar de química no IST.

Desde então comecei cada vez a conhecer mais pessoas de Lisboa, do IST e de outras partes do país. Comecei também a dizer a cada vez mais pessoas que me rodeavam no dia a dia de que era gay, amigos do IST, amigos de Abrantes, dos escuteiros e a quem se cruzasse comigo no caminho e eu tivesse necessidade de o dizer, mas a maior luta talvez ainda esteja para vir, os pais.

Tenho a noção de que em 365 dias cometi muitos erros, muitas criancices, reagi mal a muitas situações, deixei que me aleijassem, e ainda por cima aleijaram com força, fiz muitas patetices. Mas de igual forma neste ano deixei que as pessoas me conhecessem um pouco mais, apesar de muitas ainda se queixarem que não sabem nada de mim, fiz novos amigos, e inimigos também, descobri também coisas sobre mim que desconhecia e foi uma jornada algo interessante de fazer, apesar de por vezes ser difícil por um sorriso na cara quando me levanto de manhã.

Mas tudo isto teve um se não, comecei a dispersar os meus pensamentos cada vez com mais coisas e a distrair-me mais, um exemplo fulcral era que antigamente eu lembrava-me dos anos das pessoas e não me esquecia de dar os parabéns, agora lembro-me dos anos das pessoas, mas como estou com a cabeça no ar esqueço-me de dar os parabéns. De igual forma sinto que tudo isto fez com que eu deixasse de ter objectivos na vida bem definidos, antigamente sabia o que queria e agora reparo que eu deixo a vida andar, não faço muito para a tentar controlar.

Um exemplo de como a minha vida anda a mudar é que pela primeira vez tinha planos para o meu verão, mas fui impedido de os realizar, tentei lutar um pouco mas não consegui. Mas como toda a gente diz, para o ano há mais, talvez… porque apesar de eu já ter desperdiçado os melhores anos da minha vida ainda tenho alguns pela frente para tentar ser feliz.

Obrigado a todos.

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